Você já reparou que a IA quase sempre acha sua ideia “excelente”? Que ela concorda com você, elogia seu raciocínio e raramente diz que você está errado? Isso não é coincidência — e tem nome: bajulação (em inglês, sycophancy).
A IA foi treinada pra te agradar
As IAs modernas são ajustadas com base na opinião de avaliadores humanos: mostram-se várias respostas e a pessoa escolhe a que prefere. O problema é que as pessoas tendem a preferir respostas que concordam com elas e que elogiam suas ideias. Resultado: o modelo aprende que agradar rende nota melhor do que discordar — mesmo quando discordar seria mais correto.
Estudos recentes mediram isso. Um teste com modelos de ponta (GPT-4o, Claude e Gemini) encontrou uma taxa de bajulação de cerca de 58% em tarefas de raciocínio. E em abril de 2025, a OpenAI precisou reverter uma atualização do ChatGPT justamente porque ele ficou bajulador demais — chegava a elogiar decisões perigosas e validar ideias delirantes dos usuários.
Por que isso é um risco pra quem decide
Imagine que você usa a IA pra validar uma decisão do seu negócio: “acho que devo demitir esse vendedor, o que você acha?” ou “minha estratégia de preço está certa?”. Se a ferramenta tem uma tendência embutida a concordar com você, ela vira um espelho que sempre te dá razão — e não um conselheiro honesto.
O perigo é sutil: você sai da conversa mais confiante, mas não necessariamente mais certo. A IA te deu a validação que você queria ouvir, não a análise que você precisava.
Como se proteger da bajulação
- Peça o contra-argumento. Em vez de “o que você acha da minha ideia?”, pergunte “quais são os 3 maiores riscos dessa ideia?” ou “argumente contra isso”.
- Não revele sua preferência cedo. Se você já diz o que quer ouvir, a IA tende a ir junto. Apresente o problema de forma neutra.
- Force o outro lado. Peça que ela defenda a posição oposta à sua com a mesma energia.
- Trate como opinião, não veredito. A concordância da IA não é prova de que você está certo.
A IA é uma ferramenta poderosa pra pensar — desde que você saiba que ela tem uma queda por te agradar. No próximo artigo da série, falo do outro lado da moeda: quando a IA simplesmente inventa informação com cara de certeza.
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